sexta-feira, 23 de julho de 2010

O tardar

O balde está cheio
Não sei porque ainda espero por aquela gota
Aquela que faz tudo se esparramar pelo chão
Aquela que demora a vir, mas se vem inunda
Pra que esperar por ela chuta logo esse balde
É que as doses tardam
Se tardam tenho mais tempo pra existir
Antes que a intensidade me inunde por inteiro e me faça
Viver.

Calma

Esse silêncio grita no meu ouvido
Cobrando a alma, calma!
Já vou! Só não sei quando...
Preciso me embebedar de coragem
E dirigir sem medo, que viagem...
É noite, não se enxerga nada
Mas sei onde vou chegar
Lugar nenhum, eu sei
Mas a sensação é boa
Por isso meus ouvidos doem
Mas calma.

Você precisa de dinheiro

De repente 5:50. Nossa passou tão rápido, mal se fecharam os olhos e algum barulho alardeia, grita, berra, escandaliza que a escravidão continua. Levanta esse teu corpo pesado e doído rápido, porque neste momento os minutos são muito mais rápidos. Um minuto a mais na cama são dez de atraso. Levanta. O frio vai entrar pelas frestas da tua blusa quentinha, vai te arrepiar o corpo, até que acenda a luz. Bom dia. Teus olhos ardem, e através de sombras e vultos vc tenta chegar até o banheiro. Mais frio. Joga água fria no teu rosto, na tua boca, vai anda. É vc tá vivo. Vc se veste pensando que – olha que legal – o dia está só começando “vou trabalhar ou chuto o balde? Vou trabalhar. Preciso de dinheiro”. Boa sorte. No ônibus lotado ao som do pagode vindo de algum celular agradeça, pois hoje não é funk, e nem está chovendo. Caminhando até o campo de concentração onde passará suas próximas 10 horas sob regime militar, pensa na vida, mas olha pro chão pra desviar das merdas. Chegou. Hora de seguir pelo prédio de concreto cor de cinza sem vida, pegue o elevador. Tem 30 pessoas esperando pra entrar, espere, tente pelo menos entrar no elevador sozinho depois de um ônibus abarrotado. Ao esperar o próximo, chegam mais 40 pra subir. Paciência. Entre nesse mesmo, vc já está atrasado. As pessoas se cumprimentam e os odores aparecem. Bafos de café, perfume de quinta, desodorante de sexta, 7º andar. Corredor, luz fria, abra a porta e dê bom dia a todos. Abra um sorriso porque nas próximas dez horas vc vai se virar para resolver todos os problemas do mundo. Sente-se em sua cadeira, ligue o computador e tente não olhar a hora, pois de tempos em tempos o tempo para, e quando achar que passou meia hora e o relógio continuar marcando a mesma hora não se assuste. Quando atender o telefone alguém vai te desejar um bom dia e perguntar se está tudo bem, diga que sim e pergunte o mesmo. Resolva o problema dela. Meio dia. Uma sensação impagável de alívio, afinal passará os próximos 10 minutos desviando de merdas, os próximos 10 minutos na fila do restaurante kilo, vai ser atacado por algum pegador de alumínio pelas ultimas batatas e vai esperar mais cinco até vir outra bandeja. Acabou o suco de laranja. Tudo bem pega o de goiaba. Os próximos 20 minutos comendo com agradável som ambiente de feira, os próximos 10 na fila pra pagar ouvindo os mais absurdos assuntos, e os próximos 10 desviando de merdas. Ufa, faltam só 5 horas pra acabar o dia. Mais 10 horas se passaram entre 15h e 18h, mas foram só 3 por incrível que pareça. Acabou o dia. As trombetas soam, e a felicidade te inunda, desvia das merdas cantarolando, entra no ônibus lotado menos mau humorado, mesmo com o fedor mais saliente, chega em casa e terá cerca de 3 horas pra fazer tudo que vc precisa fazer pra organizar sua vida, toma um banho quente, relaxa, deita na cama, só faltam 5 dias como esse pra chegar o final de semana, apaga luz. 5 minutos. Bom dia, vc precisa de dinheiro.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Incompetente

Gente depois de mim, esbraveja coragem e audácia inconseqüente
Mas os anos de vantagem a fizeram calar,
enquanto nascias eu já sabia falar
e enquanto falas eu já sei pensar.
falar sem pensar é que é incompetência, sabia?
e esse apontar sem saber? Inconseqüência.
Aprendeu?
Não há lição para os burros
São incapazes de enxergar o limite
Limite próprio, é, entendeu?
Melhor deixar quieto.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Tenis ou Squash?

No mal de todas as possibilidades o planeta sucumbe. Nossos guerreiros se armam de raquetes pra que haja sobrevivência mental, e ainda, pra que os olhos não se voltem para esquina por onde passam seus possantes frente aos fracos que morrem de tanta dor por não serem capazes de lutar mais ou por não terem pais bem sucedidos. Os estômagos eletrônicos vazios e cheios cruzam por aquela esquina, passam uns pelos outros como se o caminho fosse deserto, o olhar fixo a frente de onde se quer chegar, enquanto a vida passa pelas laterais sorrateira e imperceptível como um cenário de fundo sem vida. Guerreiros abatidos pela ansiedade exacerbada que faz os joelhos irem ao chão, uma doença de luxo que cabe a si mesmo a própria cura e ainda assim é o fim do mundo, então é preciso mover terras e céus pra que todos saibam o que ninguém quer saber. Os idiotas querem saber. Mas eis que eu iconoclasta contra todos digno de indiferença por julgar os frívolos, sou como eles: sem valor para os frívolos. Queria eu saber como seria o mundo sem moeda, e então se existiriam reis e reinos, a adoração seria ao que atribuída? Milagres dispostos a alguns, procissões... que fascínio é esse pelo poder do outro? Que mania de venerar... de pagar pau. Se a moeda cai, cai o pau, cai o palanque não percebe? Não me peça o braço nesta hora, conte com as costas dos seus amigos.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Silêncio

Eu não queria ser surda, mas gostaria de poder apertar mute. Eu já ouço bastante por natureza, mas favor limite aos podres, calunias, burrices, bizarrices, reclamações, venenos... ainda de gente que eu não conheço e nem quero conhecer no ônibus, na mesa ao lado, na fila, na baia ao lado - antes fosse um cavalo na baia ao lado - não, não peça minha opinião porque vou ser grossa, e sou bastante por natureza, tenho intolerância a ignorância, sou ignorante. No máximo um sorriso fraco como símbolo do meu silencio e agradecimento por não insistir. É cada absurdo, que às vezes eu me pergunto como consigo viver num universo de palavras que me fazem faltar o ar. Ninguém sabe nada, mas como falam... falam por gerações inteiras, longínquas, que mania de querer falar o que pensa e o que não pensa pra falar. Às vezes penso que o mundo só vai ter paz, quando houver silêncio.

terça-feira, 30 de março de 2010

Seiva

Socorro,
Me falta seiva
Dessa que ruborece a face
Da que ferve a carne
Impassível de disfarce
Essa que corre de veia em veia
De membro em membro
Até chegar ao topo
Estremece a base
E todas as pontas
Essa que bomba o peito
E obriga o sorriso
Depois o riso
vai o juízo
A calma
A alma